Outro dia me senti como um daqueles velhos rabugentos e resistentes às novidades da sociedade.
Decidi que trocaria de aparelho, uma vez que a validade do meu acabou e ele está apresentando vários defeitos (desliga sozinho, nem sempre toca, bateria dura pouco, sinal só melhora depois que desligo e ligo o aparelho novamente…), e quase levei um susto ao descobrir que existem aparelhos que custam mais de R$2.000,00 e promoções que fazem com que estes mesmos aparelhos saiam, praticamente, a custo zero.
A princípio pensei em concertar meu aparelho, uma ação ecologicamente coerente se considerar que será um aparelho a menos a poluir o ambiente ou a demandar recursos para que seja reciclado, mas logo desisti da idéia. Meu aparelho, apesar de ter 12 meses de uso, já está ultrapassado! O que significa dizer que não existem mais peças para ele nas assistências técnicas e o custo de manutenção é praticamente o preço de um modelo “basiquinho” novo. Digo modelo “basiquinho” porque mesmo estes modelos apresentam mais recursos do que o modelo que uso atualmente, e eu já achava que tinha tudo de que precisava…
É curioso observar que todo o argumento de venda das operadoras de telefonia está voltado para a venda de planos “ultra vantajosos” que podem ser consumidos através de aparelhos “ultra modernos” que estão cada vez maiores, mais caros, menos duráveis e cheios de funcionalidades. Mais curioso ainda é perceber que somos convencidos diariamente de que precisamos trocar de aparelhos todos os anos e contratar sempre os planos mais vantajosos das operadoras de telefonia para que possamos fazer parte da sociedade, para que não nos sintamos excluídos do grupamento em que vivemos. Por falar nisso, será que todos os meus amigos já estão usando o que há de mais moderno? Talvez até ganhe status por ser o primeiro em meu grupo direto de convívio social…
Hoje tenho condições de contratar uma operadora para acessar meus emails, navegar na internet, enviar dezenas de SMSs gratuitamente, tirar fotos que já saem com as coordenadas oferecidas pelo GPS e podem ser publicadas imediatamente na internet, guardar minha agenda de contatos, jogar, gerenciar comunicações, trocar arquivos com outras pessoas, fazer tele-conferências, ouvir rádio ou músicas em formato mp3, assistir televisão digital, assistir arquivos de vídeo e até mesmo gravar e postar para a internet meus próprios vídeos. Tudo isto sem valar nas dezenas de serviços adicionais de mensagens multimídia, caixa postal, serviço por mensagens de texto, além da possibilidade de deixar meu aparelho com a minha cara, trocando o papel de parede, os esquemas de sons e cores, definindo perfis de funcionamento, configurando agenda de compromissos e alarmes, sendo lembrado de anotações importantes e sabe-se lá mais o que. E eu só queria ser capaz de fazer e receber ligações telefônicas a um custo justo…
No final das contas saio com um plano de serviços que me dá direito até mesmo a fazer ligações telefônicas, porto um trambolho enorme que não cabe na palma de minhas mãos e que vale uma fortuna, passo a figurar a lista de alvos da violência urbana e ainda estou “me achando”.
E o melhor de tudo, tudo isso: em milhares de suaves prestações com valores que correspondem a menos de uma passagem de ônibus por dia!!!
Será que realmente consumimos o que precisamos? Ou estamos sendo empurrados por uma massa de argumentos bem articulados que nos conduzem à busca de hábitos que tiram nossa tranqüilidade enquanto não os praticamos?
Quanto será que sofremos por não nos sentirmos incluídos entre os portadores do plano Mega-super-ultra-ômega da operadora ZZZ que só pode ser consumido através de aparelhos caríssimos e pouco práticos? Ou melhor, por que será que sofremos por isso?
Será que tudo isso realmente faz sentido? Começo a achar que os velhos rabugentos e resistentes às novidades da sociedade também têm um pouco de razão. Pela primeira vez na vida compreendo o ponto de vista deles e percebo que esta postura de resistência não se faz exclusivamente devido ao avanço da idade, quem sabe não é um sinal de maturidade?
Será que existe um ponto de equilíbrio em tudo isso?